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Postagens

Mais uma noite fria de chuva qualquer

Pedro toma um café no balcão de um bar. Na TV alguma notícia sobre o mundo. Ele assiste indiferente. Nas mesas de fora observa duas amigas que conversam. Elas já estão na terceira cerveja. Sorriem à toa. Lindas. A breja, a conversa, as blusas e os cachecóis as aquecem do frio. Uma garoa começa a cair. A intensidade aumenta e ela se transforma numa chuva. As garotas e outros clientes entram no bar. Um cara de boné e mochila preta se refugia no toldo do estabelecimento. Ele consulta o celular. Nas mesas lá no fundo um casal com a filha parece se divertir. O pai é enorme, a mãe é um pouco menor e a filha é pequenina. Os olhos dos pais brilham a observar a garotinha que se diverte enquanto come. Pedro paga o café e vai para o toldo. Acende um cigarro. Os carros que passam com seus faróis revelam as gotas que estão prestes a molhar o asfalto. Os postes iluminam a noite chuvosa. Pedro joga sua bituca no chão, cobre a cabeça com a toca da blusa e caminha na chuva com suas mãos no bolso. ...

Discurso Conservador Brasileiro

Hey arranje um emprego, mude essa roupa, corte o cabelo, tire a barba, não fume cigarro, muito menos maconha, não leia certos livros, compre uma bíblia, pare com essa música, coma essa vadia, bata nela, coma outras, bata nelas também, ande direito, seja homem, compre uma arma, os americanos são fodas, índio é beberrão, preto é ladrão, pobre é vagabundo, bichas são doentes, esquerdistas são terroristas, nordestinos são burros, professores reclamam demais, pt nunca mais, ditadura sim, vá para igreja, não pise num terreiro, deus é bom, o diabo é mal, amo meu país, ganhe dinheiro, se case e tenha filhos, ensine o ódio, ensine o preconceito, ensine o racismo, ensine o machismo, ensine a homofobia, ensine a ignorância, ensine o horror, ensine o terror, ensine o medo, ensine o fascismo, ensine o ódio. 

Fofis

Wesley corre desesperado para casa. Envergando o corpo pra frente e contraindo as nádegas para segurar a vontade. Parece que quanto mais próximo mais ela aumenta. Chega esbaforido em casa e se apressa para o banheiro. Quase que não tem tempo de abaixar as calças. Haaaa. Sente-se aliviado. Que aperto. Ao olhar ao lado não vê o papel higiênico. Nem no armário da pia. Putz. Ô BIIIIIIAAAAH! BIIIIAAH! Bia grita. OIEE! Que foi?! Tá doido?! Meu, compra um papel ali no Juarez. Vim numa carreira só e não percebi que tinha acabado. Você quer dizer caganeira só, né?! Wesley se irrita. Anda logo menina. Tá bom, tá bom. No Juarez Bia decide qual marca de papel levar para casa. A que sua mãe sempre compra aparentemente acabou. Distraída olhando para a parte de cima da prateleira onde os papéis ficam ela tromba com Emily. Oi Em, tudo bem? Tudo sim e você? Também estou bem. E aí, o que procura? Vim comprar aquele papel de dupla camada, sabe? Fofinho e tal. Ah, sei, o Fofis, né? Isso. O que tem uns ur...

Manhã Escaldante

Nanda espera Leo na mesa da cozinha. Bebe um café quente vestida com seu roupão vermelho. Desvia o olhar das mãos que apertam a caneca para o relógio na parede. O ponteiro menor está no número oito e o maior no dez. Os olhos fundos revelam mais do que seu cansaço, são reflexos da angústia e frustração. Ainda não pregou as pálpebras e o café ajuda na tarefa de deixá-las abertas.  Ouve as chaves na fechadura da porta. Apreensiva acompanha os passos que vão se aproximando. Leo entra na cozinha. Encara-a indiferente enquanto Nanda o evita olhando para baixo, para seus dedos delgados que nervosos apertam a caneca com mais intensidade. Ele pega a garrafa de café que está em cima da mesa, na pia pega um copo que seca no escorredor. Com o café fumegante sai mudo assim como entrou. Ela ouve o ranger do couro do sofá e as vozes da televisão. Levanta-se e no quarto tira o roupão. Se olha no espelho. Ganhou uns pneuzinhos na cintura, mas continua maravilhosa. Toma um banho e escol...

Assalto

Susan se sente impotente. Impotente diante da vida. Ela ainda se lembra de se sentir perdida com o fim do ensino médio, enquanto seus amigos e a maioria dos seus colegas de classe já tinham tomado resoluções em relação à faculdade, cursos e trabalhos, ela ainda tentava analisar todas as suas possibilidades. Durante essa fase o que lhe dava mais ódio ainda, mais do que não saber o que fazer, eram os planos de terceiros sobre o que ela não tinha o menor interesse, apesar de não saber o que queria, ela definitivamente sabia o que não queria, um emprego chato, um namorado para afirmar sua sexualidade, um carro para ficar parada no trânsito, uma faculdade sinônimo de empregabilidade, estabilidade e grana. Essas exigências sociais lhe aborreciam. Quando enfim ingressou na faculdade e pôs a cara nos livros elas pararam um pouco. Só não sabia que elas voltariam com mais peso depois de quatro anos de Ciências Sociais e que ela se sentiria mais perdida ainda. Como a impotência de um assalto...

Sem o chumbo, só com o amor

Maira de 63 anos está sentada no seu sofá sóbrio. Seu vestido é âmbar e suas unhas são pretas. Seu cabelo curto e grisalho, seu óculos elegante no colo e seu batom discreto destoam da convulsão de lágrimas que irrompem de seus olhos. Elas são quentes e não é devido à iluminação montada em sua sala. Anitta pensa em desligar a câmera. Desculpa. Tudo bem. Não, desculpa. Vamo parar... Não, não. Podemos continuar. Certeza? Sim. Então, tá... Eae galera, tudo certo? Rodando. Tudo bem... Qualquer coisa é só dizer, tá? Maira concorda com a cabeça afirmativamente. Certo... Então, qual foi à última vez que você viu o Aylton? Foi em 71. Ele me levou da faculdade para casa. Disse que ia numa reunião. Vi sua silhueta desaparecer no contraluz do fim de tarde. Era nossa despedida e eu não sabia. Lembro da calça sarja ocre, do jaco marrom por cima da camisa social branca, do maço de cigarro no bolso da camisa, dos sapatos pretos, do cabelo castanho p...

Sexta de Noite

A gata ronrona no meu colo enquanto você provavelmente deve estar ronronando na sua cama. O som ronrona baixinho com suas distorções e ruídos. A ceva ronrona enquanto rola pela minha garganta. Numa sexta de noite. Numa sexta de noite. Escrevo pra você numa sexta de noite. Não me pergunte à hora exata e nem a data ou o mês ou até mesmo o ano. Foda-se. Escrevo-te no presente, pois assim parece que estou a falar com você nesse instante, assim as palavras passam a impressão de estarem rolando agora, naturalmente, numa espécie de prosa espontânea misturado com fluxo de consciência ou de pensamento, digressões, confusões, distorções, invenções. Você não percebeu, mas fiquei um tempo sem escrever só ouvindo as reverberações da voz da cantora e durante essa audição dei alguns goles na minha sétima, oitava breja, sei lá, já perdi as contas, pode ser que esteja exagerando. As guitarras parecem que estão numa espécie de vórtice, um vórtice onde eu me deixo levar, vou deslizando, degringolando, n...