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Abraço na Rodoviária Tietê. Faz seis anos que pai e filho não se veem e não se sentem. Vindo de Luís Gomes, serra interiorana no oeste do Rio Grande do Norte, divisa com Uiraúna na Paraíba, o pai chega a São Paulo depois de três dias de viagem. O clima seco do sertão agraciado pela brisa da noitinha da serra potiguar dá lugar à garoa fina do fim de tarde que cai no asfalto quente da imponente capital paulista. Com uma mala cheia de saudades e caixas cheias de presentes, castanhas, seriguelas, rapadura, goma de tapioca, doce de caju, de mamão com coco, e outras coisas mais da saudosa terra castigada, mas sempre querida no interior do coração da sua gente, o pai vem de braços abertos visitar o filho e a família que veio buscar a sorte onde as gotas de chuva caem para disfarçar as lágrimas do povo que aqui chora.

Estabelecido em Jandira, na microrregião de Osasco, na Grande São Paulo, o filho tem uma longa jornada para casa junto com o pai. Da linha azul eles precisam desembarcar na linha vermelha para então chegar à linha diamante e enfim seguir viagem até o munícipio dos favos de mel. Seria algo fácil se não fosse pelas caixas que precisam ser carregadas, três caixas cheias e pesadas com lembranças de casa, da terra, da meninice obrigada a trabalhar cedo no solo infértil para depois passar a maturidade nesse solo duro de concreto. O cheiro azedo da goma, da farinha e do fumo do pai, despertam lembranças do sítio, da mãe que cuidava dele e dos três irmãos com amor e sem se queixar, o cheiro do mato e do barro cru misturado com o cheiro do precioso feijão preparado no fogo à lenha. Tantos cheiros que lhe lembram do aroma do ventre que desejaria nunca ter saído ou ao menos nunca ter visto padecer nessa terra que tudo traga e devora.

O metrô em direção ao Jabaquara estaciona na plataforma. O pai entra com a mochila e uma caixa enquanto o filho coloca as outras para dentro da cobra metálica que desliza pelos trilhos. Ao pôr a última caixa, as portas se fecham para seu desespero. Merda. Eu nem falei onde era pra descer... Não tendo o que fazer, ele espera o próximo para embarcar. Ele chega e as portas logo se abrem com uma multidão a sair e outra a entrar, o alarme de segurança apita e as portas novamente se fecham. Enquanto o metrô cheio segue viagem ele observa se o pai não desembarcou em alguma estação. Na porta e impossibilitado de entrar para os corredores da composição, ele aproveita para descer na plataforma da estação Armênia e com uma olhada rápida se certificar que o velho não está por lá e embarcar no mesmo metrô novamente. Ele repete o mesmo procedimento na Tiradentes, na Luz e na São Bento. Nada. O velho pode ter descido e ele não ter visto assim como pode ter seguido viagem até o Jabaquara. Puta merda.

Próxima estação. Sé. É onde segue viagem. Precisa informar aos funcionários da estação. Eles podem lhe ajudar na busca. Interfone para anunciar ao perdido sobre o filho que o procura e homens e mulheres para caça-lo no meio de tantos rostos. Uma multidão desce na estação do centro de São Paulo. Em meios aos vultos que vão para direita e para a esquerda ele vê uma silhueta familiar parada embaixo da escada. Se dirige ao velho com pressa, feliz e aliviado. Como o senhor soube que era pra descer aqui? Eu vi um monte de gente descendo... Não ia ficar sozinho naquele negócio não. O filho ri e ajuda com a bagagem. Da claraboia sem vidro da estação observa o ir e vir rápido ou lento de quem busca e espera ser feliz nessa correria. Não há lugar mais propício, pensa, afinal Sé, estranhamente, rima com Fé. 

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