Com as mãos no bolso e gingando Emerson passa na frente de um bar. Uma galera se reúne na porta do estabelecimento de Nivaldo. Uma jovem loura e de vestido vermelho lhe ultrapassa chamando não só a sua atenção, mas do bar inteiro que imediatamente assobia e solta piadinhas pra cima da guria que rebate as investidas com silêncio e indiferença, mas também com um nítido constrangimento. Emerson fica com dó da moça e se pergunta qual é a dos caras, a mina é casada e com certeza um deles sabe. A quebrada é cheia de hipócritas que odeiam talaricos, mas anseiam perdidamente em ser mais um. Emerson não sabe o motivo, mas uma culpa se instalou nele. Ele poderia ter repreendido aquela rapaziada sem noção. Mas quem Emerson quer enganar, ele também é homem, quem sabe tal defesa produziria comentários contra a sua índole e pior contra a índole da moça também. Pensa como sua namorada se sentiria se fosse alvo de semelhante episódio e como sua masculinidade seria ameaçada com isso... O que não lhe faria melhor do que eles, afinal.
Spike está deitado na grama molhada que separa as duas vias da Belmira Marin. Repousa a sua cabeça nas patas dianteiras esticadas no gramado. Coça suas costas com os dentes, tira a língua pra fora e levanta a cabeça acompanhando os ônibus que vão para os bairros localizados ao fim da avenida, Cocaia, Lago Azul, Prainha, Lucélia, Gaivotas. Mas aos poucos a Belmira vai se esvaziando. A quantidade de ônibus diminui em relação à quantidade de pessoas que começam a lotar e transpor a pé as calçadas com suas lojas de roupa, padarias, pet shops e mercados. Spike indiferente ao que acontece volta a deitar a cabeça sobre as patas. O terminal Grajaú está entupido. A linha para o Cantinho do Céu possui pelo menos cinco filas e filas enormes. Muitos já chegam e nem perdem tempo. Passam pelas catracas do Terminal e começam a procissão para casa. Uma caminhada de quarenta minutos da forma que acharem melhor, passos rápidos, passos lentos, observando o trânsito da avenida, conversando com o ...

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