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Movimento

Já fazia um mês que meu tio morava com a gente. Ainda não entendi o que aconteceu. Um dia ele chegou aqui com uma mala e uma mochila. E o seu velho violão. Pai o acolheu de bom grado. Colocamos o sofá da sala no meu quarto. Abri mão da minha cama, pois já dormia mais no sofá para assistir televisão do que nela, já não era minha mesmo. Toda noite conversávamos antes de pegarmos no sono. As suas histórias sobre a infância e o Nordeste substituíram os programas. Me falava da minha vó Ruth que infelizmente não conheci. Conheci mas muito criança e esqueci. Em todas as histórias que a família conta a vejo como uma mulher de personalidade forte e ao mesmo tempo amável. Queria ter guardado alguma lembrança dela, podia ser a mais simples de todas, um olhar, um gesto ou um sorriso. Foi dela que meu tio pegou o gosto pela música. Ela que o ensinou a ler e quem o incentivou a tocar violão. Todas as noites ela cantava na cozinha e ele sentado no chão acompanhava-a com seu violão. A última vez que ...

Montes

Um monte de casa, sobrado e barraco Um monte de monte de entulho espalhado Um monte de fios que se cruzam e entrecruzam com um monte de rabiolas e pipas enganchados Um monte de pessoas largadas nas margens Da Cidade Sociedade Vida      Periferia: desconhecida, esquecida, pré-concebida, perdida entre interesses econômico-políticos entre leis sovinas e mesquinhas de poderosos que perpetuam o poder  em nome de Deus e da tal Meritocracia  “Leis! Sabe-se o que elas são e o que elas valem. Teias de aranha para os poderosos e os ricos, cadeias que arma alguma teria meios de romper para os pequenos e os pobres, rede de pesca entre as mãos do governo”. Somos as moscas e os peixes de Proudhon Nojentos e asquerosos Parasitas e pratos-do-dia Sugando o sangue azul e sufocando-os com nossas espinhas Ah delírio alucinante mortalmente peçonhento! A Grande Aranha Octópode nos drogou com seu veneno  e...

Antes de Dormir

Em close um cinzeiro. Quatro bitucas amontoadas sobre as cinzas. A fumaça de um cigarro pela metade repousado no cinzeiro dança se contorcendo eroticamente. Ele pega-o e coloca-o na boca.  Em close uma boca com os lábios contraídos a tragar o cigarro. A tesoura dos seus dedos o devolve ao cinzeiro. A fumaça é expelida pelo seu nariz e boca. O cheiro da fumaça se incrusta na sua barba hirsuta. Em close seus dedos se movem pelas letras do teclado de seu computador. Dedos finos e delgados a ir pra lá e pra cá, digitando as teclas que formam certas palavras, que não são outras e nem aquelas, mas essas. Em close suas orelhas cabeludas. O cabelo encaracolado esconde a parte superior delas. São grandes e com lóbulos proeminentes. Elas captam o som que sai das caixinhas do computador. A música lhe fisga por completo e ele desiste de escrever. A tela preta banhada com as cores da música o esconde. Prefere ficar no escuro, só fumando e sentindo, enquanto seus pensamentos...

Que se danem

Elias admira Valdir. Valdir é obreiro na casa do senhor, ora, canta, prega, profetiza, é um vaso nas mãos de Deus. A opinião na congregação é unânime: ele é usado. Dessa admiração nasce a amizade dos dois, apesar da diferença de idade, Elias tem doze e Valdir vinte e dois, o elo essencial para essa relação já está posto.  Um dia Valdir convida Elias para sua casa. Conversam sobre sexo. Valdir revela o seu desejo por um boquete. Elias estranha a conversa e ao mesmo tempo se sente privilegiado. Valdir é sempre tão sério e correto com todos, se com ele se sente a vontade para esses arroubos confessionais é porque o considera um amigo de verdade. Em outra visita Elias encontra William conversado com Valdir. Sente ciúme. Valdir é seu amigo. Eles possuem uma relação especial. Valdir e William comem pipoca enquanto assistem a um filme. Ben Hur. Elias pega um lugar no sofá da sala e os acompanha. Não gosta do filme e resolve ir embora. Se despede dos dois que permanecem assist...

Solidão A Dois

Um sad rock belorizontino reverbera no pequeno cubículo. Ele fuma deitado no colo dela. Ela lê enquanto acaricia os cabelos dele. O som alto das guitarras esconde o barulho da chuva que acaba com o mundo lá fora. A tempestade assopra as paredes que envolvem o pequeno mundo pueril deles, os protegendo das intempéries, indiferentes a realidade externa não percebem a implosão de dentro pra fora, da solidão que corrói e os ausenta mesmo estando corporalmente presentes. Antes dividir a solidão do que sufocar-se sozinho no vazio gélido insuportável da alma. De repente a temperatura no quarto cai, o cômodo parece mais frio que os ventos tempestuosos. Vão juntos para debaixo dos cobertores, adormecem dividindo a temperatura dos seus corpos, um calor que relaxa os músculos e as pálpebras num sono irresistível e profundo. Sonham o mesmo sonho onde polos extremos são ligados por uma linha tênue que ora os aproxima e ora os repele num movimento de vem e vai eterno e cíclico que é interrompido pel...

Esteira

Ela desce do bus. Já é uma hora da manhã. A Avenida Belmira Marin está praticamente deserta. As vielas estreitas e insalubres do Jardim Prainha são mais inóspitas ainda. Teve o azar de não ter ninguém no ônibus que também morasse por esses lados. Ela desce a Estrada da Ligação sozinha. Começa numa velocidade baixa.  Da Avenida até a sua casa são aproximadamente mil metros e meio. Desce num passo constante. Passa pelo primeiro e sinistro trecho da estrada com as torres de alta tensão e seus barracões. Ela não olha para os lados com medo de ver alguém na escuridão. Bota Arctic Monkeys nos fones de ouvido para tentar relaxar. Brianstorm ajuda a aumentar o ritmo. Já está numa velocidade elevada. Passo firme e respiração ofegante. A vendinha protegida por grades sempre reúne um grupinho de rapazes. Passa sentindo que está sendo acompanhada por olhares.  Passando pela igreja católica numa velocidade maior é surpreendida por um homem que sai da rua quinze ou doze,...

Cultura É Passado

Jards contempla os pôsteres na entrada do PlayArte no shopping Center 3. Ele tenta se decidir por um dos filmes junto com seu filho Daniel de dezesseis anos. Mas logo desanima do programa, o filho percebe a mudança no seu semblante. Que foi pai? Me bateu um desânimo. Não sei se quero mais assistir. Tudo bem. Jards melancólico e nostálgico completa. Sabe filho, tinha uma época que pelo menos um desses pôsteres era brasileiro. O que aconteceu? Acabaram com a Cultura.