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Que se danem

Elias admira Valdir. Valdir é obreiro na casa do senhor, ora, canta, prega, profetiza, é um vaso nas mãos de Deus. A opinião na congregação é unânime: ele é usado. Dessa admiração nasce a amizade dos dois, apesar da diferença de idade, Elias tem doze e Valdir vinte e dois, o elo essencial para essa relação já está posto.  Um dia Valdir convida Elias para sua casa. Conversam sobre sexo. Valdir revela o seu desejo por um boquete. Elias estranha a conversa e ao mesmo tempo se sente privilegiado. Valdir é sempre tão sério e correto com todos, se com ele se sente a vontade para esses arroubos confessionais é porque o considera um amigo de verdade. Em outra visita Elias encontra William conversado com Valdir. Sente ciúme. Valdir é seu amigo. Eles possuem uma relação especial. Valdir e William comem pipoca enquanto assistem a um filme. Ben Hur. Elias pega um lugar no sofá da sala e os acompanha. Não gosta do filme e resolve ir embora. Se despede dos dois que permanecem assist...

Solidão A Dois

Um sad rock belorizontino reverbera no pequeno cubículo. Ele fuma deitado no colo dela. Ela lê enquanto acaricia os cabelos dele. O som alto das guitarras esconde o barulho da chuva que acaba com o mundo lá fora. A tempestade assopra as paredes que envolvem o pequeno mundo pueril deles, os protegendo das intempéries, indiferentes a realidade externa não percebem a implosão de dentro pra fora, da solidão que corrói e os ausenta mesmo estando corporalmente presentes. Antes dividir a solidão do que sufocar-se sozinho no vazio gélido insuportável da alma. De repente a temperatura no quarto cai, o cômodo parece mais frio que os ventos tempestuosos. Vão juntos para debaixo dos cobertores, adormecem dividindo a temperatura dos seus corpos, um calor que relaxa os músculos e as pálpebras num sono irresistível e profundo. Sonham o mesmo sonho onde polos extremos são ligados por uma linha tênue que ora os aproxima e ora os repele num movimento de vem e vai eterno e cíclico que é interrompido pel...

Esteira

Ela desce do bus. Já é uma hora da manhã. A Avenida Belmira Marin está praticamente deserta. As vielas estreitas e insalubres do Jardim Prainha são mais inóspitas ainda. Teve o azar de não ter ninguém no ônibus que também morasse por esses lados. Ela desce a Estrada da Ligação sozinha. Começa numa velocidade baixa.  Da Avenida até a sua casa são aproximadamente mil metros e meio. Desce num passo constante. Passa pelo primeiro e sinistro trecho da estrada com as torres de alta tensão e seus barracões. Ela não olha para os lados com medo de ver alguém na escuridão. Bota Arctic Monkeys nos fones de ouvido para tentar relaxar. Brianstorm ajuda a aumentar o ritmo. Já está numa velocidade elevada. Passo firme e respiração ofegante. A vendinha protegida por grades sempre reúne um grupinho de rapazes. Passa sentindo que está sendo acompanhada por olhares.  Passando pela igreja católica numa velocidade maior é surpreendida por um homem que sai da rua quinze ou doze,...

Cultura É Passado

Jards contempla os pôsteres na entrada do PlayArte no shopping Center 3. Ele tenta se decidir por um dos filmes junto com seu filho Daniel de dezesseis anos. Mas logo desanima do programa, o filho percebe a mudança no seu semblante. Que foi pai? Me bateu um desânimo. Não sei se quero mais assistir. Tudo bem. Jards melancólico e nostálgico completa. Sabe filho, tinha uma época que pelo menos um desses pôsteres era brasileiro. O que aconteceu? Acabaram com a Cultura.

Mais uma noite fria de chuva qualquer

Pedro toma um café no balcão de um bar. Na TV alguma notícia sobre o mundo. Ele assiste indiferente. Nas mesas de fora observa duas amigas que conversam. Elas já estão na terceira cerveja. Sorriem à toa. Lindas. A breja, a conversa, as blusas e os cachecóis as aquecem do frio. Uma garoa começa a cair. A intensidade aumenta e ela se transforma numa chuva. As garotas e outros clientes entram no bar. Um cara de boné e mochila preta se refugia no toldo do estabelecimento. Ele consulta o celular. Nas mesas lá no fundo um casal com a filha parece se divertir. O pai é enorme, a mãe é um pouco menor e a filha é pequenina. Os olhos dos pais brilham a observar a garotinha que se diverte enquanto come. Pedro paga o café e vai para o toldo. Acende um cigarro. Os carros que passam com seus faróis revelam as gotas que estão prestes a molhar o asfalto. Os postes iluminam a noite chuvosa. Pedro joga sua bituca no chão, cobre a cabeça com a toca da blusa e caminha na chuva com suas mãos no bolso. ...

Discurso Conservador Brasileiro

Hey arranje um emprego, mude essa roupa, corte o cabelo, tire a barba, não fume cigarro, muito menos maconha, não leia certos livros, compre uma bíblia, pare com essa música, coma essa vadia, bata nela, coma outras, bata nelas também, ande direito, seja homem, compre uma arma, os americanos são fodas, índio é beberrão, preto é ladrão, pobre é vagabundo, bichas são doentes, esquerdistas são terroristas, nordestinos são burros, professores reclamam demais, pt nunca mais, ditadura sim, vá para igreja, não pise num terreiro, deus é bom, o diabo é mal, amo meu país, ganhe dinheiro, se case e tenha filhos, ensine o ódio, ensine o preconceito, ensine o racismo, ensine o machismo, ensine a homofobia, ensine a ignorância, ensine o horror, ensine o terror, ensine o medo, ensine o fascismo, ensine o ódio. 

Fofis

Wesley corre desesperado para casa. Envergando o corpo pra frente e contraindo as nádegas para segurar a vontade. Parece que quanto mais próximo mais ela aumenta. Chega esbaforido em casa e se apressa para o banheiro. Quase que não tem tempo de abaixar as calças. Haaaa. Sente-se aliviado. Que aperto. Ao olhar ao lado não vê o papel higiênico. Nem no armário da pia. Putz. Ô BIIIIIIAAAAH! BIIIIAAH! Bia grita. OIEE! Que foi?! Tá doido?! Meu, compra um papel ali no Juarez. Vim numa carreira só e não percebi que tinha acabado. Você quer dizer caganeira só, né?! Wesley se irrita. Anda logo menina. Tá bom, tá bom. No Juarez Bia decide qual marca de papel levar para casa. A que sua mãe sempre compra aparentemente acabou. Distraída olhando para a parte de cima da prateleira onde os papéis ficam ela tromba com Emily. Oi Em, tudo bem? Tudo sim e você? Também estou bem. E aí, o que procura? Vim comprar aquele papel de dupla camada, sabe? Fofinho e tal. Ah, sei, o Fofis, né? Isso. O que tem uns ur...