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Pobre meu pai

O silêncio imperava entre mim e meu pai. Pela manhã não havia bom dia, só sabia que ele tinha ido trabalhar por causa do som da porta sendo fechada. Ele não perguntava sobre mim, meu dia ou minha escola, se tudo estava bem ou estava mal. De noite ele quase não respondia a minha benção, murmurava um deus abençoe ríspido, entre os dentes. Todos os dias eram assim. Em datas comemorativas era um simples aperto de mão acompanhado com o que cabia ao momento, “parabéns”, “feliz aniversário”, “feliz natal”, “feliz ano novo” . A sorte é que eu passava praticamente o dia sem a sua presença, via-o pela noite ou olhe lá. Quando nos víamos pela casa às vezes não falávamos nada só nos cumprimentávamos com um aceno de cabeça. Nunca o vi chorar, parecia uma rocha inabalável, nem quando sua mãe, minha vó, faleceu. Todos os meus tios choraram menos ele. Não sabia como ele se fechava dessa maneira. Não conseguia ler suas expressões, gestos e olhares, para tudo parecia indiferente. Forte meu pai. Lem...

Sombras

Uma jovem negra para em frente a um cinema com seus cartazes cheios de atrizes brancas. Não demora para que seja abordada por um homem branco desconhecido. A mulher branca da bilheteria não faz nada. A jovem negra resiste, até que um sujeito de topete e cigarro, mas também branco, dá um chega pra lá nele.  Fico com essa imagem na cabeça. Não sei o porquê.  Sombras.           Cassavetes. OBS: deve ter sido por causa das latinhas que eu bebi.

Película

Na sala a observar Mexendo no cabelo Balançando as pernas Ou inquieta no celular A ansiedade por terça-feira Não pela tarde e nem pela noite Mas pelo entre Sentados num banco Diante de uma fileira de prédios E do pôr do sol no horizonte entre duas aulas O rodapé não lido A risada alta e contagiante que não passou desapercebida Os pendrives com filmes e com os não ditos Os grains de beauté Pontos para ligar O nervosismo na sala escura A apreensão, a tensão, a expectativa Que enfim foi cumprida ao fim da película Película que nos acompanhou ao fim da sessão Com sua cronometragem infinita Celuloide sem conta e sem ponta Que conta sobre o amor Que transborda Da fita Para a vida

Quilombo

Primeiro foram os índios. E agora somos nós. Começamos nos engenhos. Passamos para as minas. Do tronco para a senzala. Para os cafezais. Só nós trabalhávamos. E só vocês lucraram. Partimos para a quilombagem. Organizando quilombos.  Guerrilhas e protestos. Coletivos ou individuais. Fomos até bandoleiros. Porque a violência também é uma resposta. Por algum motivo ainda estamos aqui. Mas hoje vocês não precisam de nós. Por isso, Fomos empurrados para as margens. E somos mortos pela polícia. Não me venha com o seu “não é assim”. E nem com papo de miscigenação. Me pergunto o quanto minha pele podia ser mais negra se não fosse por vocês. Engano achar que a questão racial não está relacionada com a social. Não somos recortes ou amostragens para a sua academia. Não nos venham com suas pesquisas ou câmeras. Não me objetifique e muito menos fale por mim. Guarde sua culpa e seu humanismo. Se ainda estamos vivos é po...

Essa manhã bateu como um sonho

Toda manhã a árvore no final da rua com seus braços frondosos tenta alçancar o azul bebê do céu. As crianças ao seu redor brincam de pipa e de bike num corre-corre pra lá e pra cá que tira toda a costumeira preguiça matinal. A represa aos fundos brilha com a luz do sol com o seu azul misturando-se com o branco. A sua superfície brilhosa cobre a manhã com um éter efêmero e gelatinoso que se desmancha rápido, mas permanece na lembrança, como um sonho. As casas no horizonte flutuam sobre às águas cristalinas compondo com suas cores um quadro vivo. Vermelhas como a terra, o barro e a poeira que remetem ao lugar de origem de seus moradores ou de suas próprias ruas recém-pavimentadas. Tudo é entrecortado por cores, formas, fios, paralelepípedos, pássaros, nuvens e sombras. Não existe certo ou errado, bem ou mal, bom ou ruim, deus ou diabo, só eu e você, e o que decidimos fazer com o que temos nas mãos.

Era outono

Durante o pôr-do-sol Você cobriu a cidade com o seu amarelo Me embriagou com o seu cheiro Me envolveu com o seu hálito E me abrigou no seu abraço Meu peito já estava transpassado Pelo seu olhar castanho claro Quando veio Tiro Ao Álvaro E ainda achou onde furar

Lunáticos

A rua era íngreme e sem saída. Uma ladeira enorme de paralelepípedos quebrados e desgastados. De um lado casas. Do outro, eucaliptos e pinheiros que formavam uma propriedade rural. A noite tinha chego e a lua veio com ela, saindo de sua casa desconhecida juntamente com as corujas que também saíam de suas tocas secretas, e de toda a molecada que tomava a rua para brincar de esconde-esconde. A noite fora feita para se brincar de esconde-esconde. A escuridão e o silêncio acentuavam o mistério e a tensão. O esconderijo podia ser um galho alto de uma árvore ou os grandes tubos de esgoto que ficavam ao fim da ladeira. No escuro não há limites. Eles varavam noite à dentro descobrindo seus segredos e artimanhas até que seus pais, um por um, os chamavam para casa. Os que restavam continuavam brincando até se cansarem e debandarem por conta própria. Os quatro amigos inseparáveis esperavam todos irem embora para começar a sua interminável busca. Eles procuravam em todas as bocas de lobo, poç...