Pular para o conteúdo principal

Mais uma noite fria de chuva qualquer


Pedro toma um café no balcão de um bar. Na TV alguma notícia sobre o mundo. Ele assiste indiferente. Nas mesas de fora observa duas amigas que conversam. Elas já estão na terceira cerveja. Sorriem à toa. Lindas. A breja, a conversa, as blusas e os cachecóis as aquecem do frio. Uma garoa começa a cair. A intensidade aumenta e ela se transforma numa chuva. As garotas e outros clientes entram no bar. Um cara de boné e mochila preta se refugia no toldo do estabelecimento. Ele consulta o celular. Nas mesas lá no fundo um casal com a filha parece se divertir. O pai é enorme, a mãe é um pouco menor e a filha é pequenina. Os olhos dos pais brilham a observar a garotinha que se diverte enquanto come. Pedro paga o café e vai para o toldo. Acende um cigarro. Os carros que passam com seus faróis revelam as gotas que estão prestes a molhar o asfalto. Os postes iluminam a noite chuvosa. Pedro joga sua bituca no chão, cobre a cabeça com a toca da blusa e caminha na chuva com suas mãos no bolso. A entrada iluminada do metrô reúne um pequeno grupo de pessoas que se protege do mau tempo. Guarda-chuvas sóbrios enchem as calçadas. Pedro abre caminho entre a multidão e entra molhado no metrô com seu cheiro de chuva, café, cigarro, fumaça e desencanto.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Tira-Teima

Ela diz que eu sou teimoso, mas eu insisto que não. Ela que é teimosa por insistir que eu sou teimoso. Entre teimas e teimas resolvi tirar um tira-teima: quando eu digo que a amo ela responde com um amo mais e quando ela diz que me ama eu respondo com um amo mais. Nessa teima sem fim nunca saberemos quem ama mais quem. Os dois são tão teimosos que provavelmente se amam em igual medida: a medida do amo mais. A grandeza é dada pelo amor, o nome da unidade é amo mais e seu símbolo é o infinito (∞) [1] . [1] A parte matemática provavelmente está errada, mas nesse caso ela só serve para ilustrar o quão infinito é o amor de dois teimosos.

Movimento

Já fazia um mês que meu tio morava com a gente. Ainda não entendi o que aconteceu. Um dia ele chegou aqui com uma mala e uma mochila. E o seu velho violão. Pai o acolheu de bom grado. Colocamos o sofá da sala no meu quarto. Abri mão da minha cama, pois já dormia mais no sofá para assistir televisão do que nela, já não era minha mesmo. Toda noite conversávamos antes de pegarmos no sono. As suas histórias sobre a infância e o Nordeste substituíram os programas. Me falava da minha vó Ruth que infelizmente não conheci. Conheci mas muito criança e esqueci. Em todas as histórias que a família conta a vejo como uma mulher de personalidade forte e ao mesmo tempo amável. Queria ter guardado alguma lembrança dela, podia ser a mais simples de todas, um olhar, um gesto ou um sorriso. Foi dela que meu tio pegou o gosto pela música. Ela que o ensinou a ler e quem o incentivou a tocar violão. Todas as noites ela cantava na cozinha e ele sentado no chão acompanhava-a com seu violão. A última vez que ...

Esteira

Ela desce do bus. Já é uma hora da manhã. A Avenida Belmira Marin está praticamente deserta. As vielas estreitas e insalubres do Jardim Prainha são mais inóspitas ainda. Teve o azar de não ter ninguém no ônibus que também morasse por esses lados. Ela desce a Estrada da Ligação sozinha. Começa numa velocidade baixa.  Da Avenida até a sua casa são aproximadamente mil metros e meio. Desce num passo constante. Passa pelo primeiro e sinistro trecho da estrada com as torres de alta tensão e seus barracões. Ela não olha para os lados com medo de ver alguém na escuridão. Bota Arctic Monkeys nos fones de ouvido para tentar relaxar. Brianstorm ajuda a aumentar o ritmo. Já está numa velocidade elevada. Passo firme e respiração ofegante. A vendinha protegida por grades sempre reúne um grupinho de rapazes. Passa sentindo que está sendo acompanhada por olhares.  Passando pela igreja católica numa velocidade maior é surpreendida por um homem que sai da rua quinze ou doze,...