Minha tia tinha um cachorro que parecia gente. O nome dele era Scorpion. O nome era em homenagem a banda alemã, sim, meus tios são metaleiros, não, não era uma homenagem ao personagem do gamer Mortal Kombat. De muitas formas um cachorro parece uma criança, tem que se estar atento a qualquer variação de seu comportamento, hiperatividade, tranquilidade, fugas para debaixo de camas e mesas, choros, uivos. Às vezes não dá pra saber o que eles querem, comida, água, carinho, rua, proteção, e assim usamos o método que a maioria dos pais usam com os filhos quando pequenos e não conseguem se comunicar, e quando já grandes e não querem se comunicar, ou seja, tentativa e erro, na dúvida, melhor fazer tudo o que você acha que seu cãozinho ou filho talvez queiram. Meus tios acostumaram Scorpion com comida, feijão, arroz, carne, frango, peixe (sem espinhas, evidentemente), aqueles beliscos no almoço e na janta que deveriam ser só exceções acabaram se transformando em regra. Assim o bicho só comia o que todo mundo na casa comia. Tinha torta? Guarda um pedaço pro Scorpion. Bolinho de carne? Guarda. Massalada? Guarda. Lasanha? Guarda. E brigadeiro? Também, oras. Certo dia, depois do almoço, meus tios foram para o shopping. De noite ao chegarem em casa encontraram a cozinha num rebuliço só, o bicho tinha derrubado as panelas de cima do fogão, de alguma maneira aberto a geladeira e os armários, tudo fora passado a limpo. Meu tio desmaiou e minha tia enxotou o bicho para fora de casa quando encontrou Scorpion transfigurado em gente, deitado na lavanderia com a barriga inchada e a cochilar devido ao costumeiro efeito pós-refeição. Corrijo-me. Minha tia tinha um cachorro, um cachorro que era gente.
Spike está deitado na grama molhada que separa as duas vias da Belmira Marin. Repousa a sua cabeça nas patas dianteiras esticadas no gramado. Coça suas costas com os dentes, tira a língua pra fora e levanta a cabeça acompanhando os ônibus que vão para os bairros localizados ao fim da avenida, Cocaia, Lago Azul, Prainha, Lucélia, Gaivotas. Mas aos poucos a Belmira vai se esvaziando. A quantidade de ônibus diminui em relação à quantidade de pessoas que começam a lotar e transpor a pé as calçadas com suas lojas de roupa, padarias, pet shops e mercados. Spike indiferente ao que acontece volta a deitar a cabeça sobre as patas. O terminal Grajaú está entupido. A linha para o Cantinho do Céu possui pelo menos cinco filas e filas enormes. Muitos já chegam e nem perdem tempo. Passam pelas catracas do Terminal e começam a procissão para casa. Uma caminhada de quarenta minutos da forma que acharem melhor, passos rápidos, passos lentos, observando o trânsito da avenida, conversando com o ...

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