Pular para o conteúdo principal

Passeio


Chevette preto. Versão SL. Um ponto quatro. Rodas cromadas. Vidros sufilmados. 

Passa a cento e vinte quilômetros por hora na Avenida Belmira Marin.

O limite na avenida periférica é de sessenta.

O clássico de 76 some bairro adentro.

São duas e quinze da manhã.

Milo, Cuca e Joey conversam na frente da casa de Macau.

Contam vantagem do último rolê entre risadas e a fumaça dos cigarros e baseados.

Mas se assustam quando um carro estranho na quebrada estaciona na frente deles.

Imediatamente os vidros descem e a luz interna do carro acende.

Não há ninguém no veículo.

Ficam sinistramente cabreiros.

O estofado de couro dos bancos fica mais brilhoso sob a luz branca do teto.

Os amigos temerosos se levantam para entrar em casa quando o rádio do carro liga sozinho:

“Vamo andar pelas ruas de São Paulo, por entre os carros de São Paulo, meu amor, vamos andar e passear” *.

Eles se entreolham se perguntando se isso seria um convite.

Macau convence os amigos a entrar, pois isso só pode ser brisa.

A música no rádio continua: “nesse cimento, meu pensamento e meu sentimento só tem o momento de fugir no disco voador, meu amor, meu amor, meu amor!” *.

Ao que Macau no banco do motorista responde:

“Então Simbora!”

E o chevette com seus passageiros some como se fosse tragado por um vácuo no espaço e no tempo.

Ali no Grajaú.

*Passeio, canção do cantor Belchior. 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A matemática do amor

O universo possui 14 bilhões de anos. O sistema solar tem quase 5. A Terra também tá aí nessa faixa etária com seus 4 bilhões e meio.  A matemática nesses casos é aproximada. Fruto de processos, cálculos e fórmulas complexas. Com tantos números superlativos o tempo parece infinito.  Com os nossos 20 e poucos anos, quase 30 se pá, estamos ocupando somente a menor das menores das menores e menores frações de tempo desse mundo. Separo a dimensão do tempo com a do espaço, mas na verdade o que existe é a dimensão conjunta do espaço-tempo. E comigo ela funciona assim: quando estamos em espaços diferentes o tempo é mais lento e quando estamos pertinho ele é mais rápido. 2 anos é muito pouco, mas já é suficiente para saber: quero toda fração de tempo com você. 2 anos também é um número aproximado, pois o que construímos é maior do que esse valor. O nosso amor é maior do que a soma de nossos anos.  Ele tá mais próximo da idade do universo.  2 an...

Tira-Teima

Ela diz que eu sou teimoso, mas eu insisto que não. Ela que é teimosa por insistir que eu sou teimoso. Entre teimas e teimas resolvi tirar um tira-teima: quando eu digo que a amo ela responde com um amo mais e quando ela diz que me ama eu respondo com um amo mais. Nessa teima sem fim nunca saberemos quem ama mais quem. Os dois são tão teimosos que provavelmente se amam em igual medida: a medida do amo mais. A grandeza é dada pelo amor, o nome da unidade é amo mais e seu símbolo é o infinito (∞) [1] . [1] A parte matemática provavelmente está errada, mas nesse caso ela só serve para ilustrar o quão infinito é o amor de dois teimosos.

O lugar é a gente

Felipe desce o escadão do Carioba. O prédio escolar está vazio e escuro. Férias. Na sua frente dois caras carregam uma geladeira num carrinho de mão, enquanto um guia o carrinho, o outro segura o eletrodoméstico evitando que ele não tombe para o lado. Um som familiar vem se aproximando lá de trás: vamos as atividades do dia. lavar os corpos. contar os corpos. e sorrir a essa morna rebeldia. Um cara de camiseta e calça preta, vans quadriculado, segurando uma sacola numa mão e uma garrafa de água pela metade na outra passa por ele e pelos homens que carregam a mudança cantando: só os louco, só os louco, só os louco. Cumprimenta os trabalhadores e segue fazendo a trilha sonora de sua volta pra casa. Trilha que vai se misturando aos outros ruídos da vila. O fim do escadão dá numa praça improvisada pelos moradores onde uma árvore se sobressai aos vasos de plantas feitos com pneus. Uma molecada aparece do nada. Felizes. Um deles carrega algum objeto que pisca sem parar. S...