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Que se danem


Elias admira Valdir. Valdir é obreiro na casa do senhor, ora, canta, prega, profetiza, é um vaso nas mãos de Deus. A opinião na congregação é unânime: ele é usado. Dessa admiração nasce a amizade dos dois, apesar da diferença de idade, Elias tem doze e Valdir vinte e dois, o elo essencial para essa relação já está posto. 

Um dia Valdir convida Elias para sua casa. Conversam sobre sexo. Valdir revela o seu desejo por um boquete. Elias estranha a conversa e ao mesmo tempo se sente privilegiado. Valdir é sempre tão sério e correto com todos, se com ele se sente a vontade para esses arroubos confessionais é porque o considera um amigo de verdade.

Em outra visita Elias encontra William conversado com Valdir. Sente ciúme. Valdir é seu amigo. Eles possuem uma relação especial. Valdir e William comem pipoca enquanto assistem a um filme. Ben Hur. Elias pega um lugar no sofá da sala e os acompanha. Não gosta do filme e resolve ir embora. Se despede dos dois que permanecem assistindo. 

Valdir convida Elias para ir a sua casa. Durante a visita Valdir resolve colocar um filme. É um pornô. Valdir se masturba na frente de Elias para seu desconforto instantâneo. Envergonhado e se sentindo culpado Elias se despede do amigo. Valdir protesta, mas em vão, Elias vai para casa. O choque e a incompreensão perturbam Elias que de joelhos no pé da cama ora pedindo perdão a Deus.

Certo dia brincando com os amigos da igreja na rua, Elias é surpreendido com William que vem chorando. A galerinha vê o estado do amigo e o para para conversar. Todos perguntam o que foi, mas William continua chorando. Até que finalmente conta que estava na casa de Valdir e que este colocou um filme de sexo, pegou no seu pênis e o masturbou. William suplica para guardarem segredo e se despede contrito.

Elias nunca mais conseguiu ver Valdir com os mesmos olhos. Não importa se na igreja ele é “usado” por Deus. Tem alguma coisa que não se encaixa. Ele começa a desacreditar nas manifestações sobrenaturais protagonizadas pelo antigo amigo. Sentado ao lado de Juan no banco ele confessa que desconfia que Valdir seja uma farsa. Juan que estava junto com Elias quando William contou o episódio compartilha da opinião do amigo. Juan aponta com o queixo para William.

Olha lá o viadinho.

Elias olha para William que chora copiosamente. Não sabe se é por causa da presença de Deus ou por culpa e vergonha. Olha para a cara de Juan que estampa um sorriso debochado. Ele queria contar para seus pais ou alguém, mas não sabe como. Como tratar desse assunto com alguém? Quem sabe Valdir seja fiel a Deus mesmo, só foi um tropeço. Ele está confuso. Mas não compartilha da opinião de Juan. Onde está a humanidade deles? Por que zombam do amigo no lugar de compadecerem do seu sofrimento? 

Para a tristeza da família de Elias, ele vai embora antes do culto terminar e nunca mais volta para a igreja. A sua mãe protesta, o seu pai protesta, os irmãos, o pastor, o próprio Valdir, mas Elias tem um único pensamento.

Que se danem.

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