Pernas
compridas rodeiam uma cerca. A terra delimitada pelo conjunto formado pela
madeira e arame farpado restringe o acesso que antes era livre. Hoje ele anda
nostálgico em volta dessa terra que lhe foi tirada. A cada período curto de
tempo o espaço que a cerca abarca aumenta. Ele se sente incapaz, parece que
nada que possa fazer reverterá essa situação, muitos dos seus já tentaram, mas
em vão, foram expulsos ou mortos da terra que hoje não é mais de bem comum, mas
propriedade de alguns privilegiados. As suas grandes orelhas não captam nem um leve
ruído de alteração nos ventos de seu destino. O seu olfato não sente o cheiro
da mudança. O seu pelo vermelho está coberto de pó. Ele é um animal em extinção.
Aguardando o seu lugar empalhado em algum museu natural ou apodrecendo debaixo
da terra maculada com o sangue de seus irmãos. O seu corpo esguio a cada dia
definha mais e mais por causa da angústia e do desespero que lhe assolam. A
depressão lhe tirou a vontade de caçar, de comer, de viver, de lutar. A sua
carcaça vaga sob a superfície de uma terra estranha, diferente daquilo que era,
e onde não há mais lugar para ele. O contato com seres parecidos, mas que se
sentem diferentes lhe trouxe doenças, a intolerância e o preconceito de outros lhe
trouxe morte e a devastação de sua casa deixou-a infrutífera e escassa. Ele
desistiu da guerra que foi obrigado a travar. Vaga solitário no seu ritual da
morte. Ritual que é interrompido por um tiro de espingarda do dono da
propriedade. Ao se aproximar do animal abatido este se transforma num índio.
Ele dá seu último suspiro e se desmaterializa deste mundo para sempre.
Spike está deitado na grama molhada que separa as duas vias da Belmira Marin. Repousa a sua cabeça nas patas dianteiras esticadas no gramado. Coça suas costas com os dentes, tira a língua pra fora e levanta a cabeça acompanhando os ônibus que vão para os bairros localizados ao fim da avenida, Cocaia, Lago Azul, Prainha, Lucélia, Gaivotas. Mas aos poucos a Belmira vai se esvaziando. A quantidade de ônibus diminui em relação à quantidade de pessoas que começam a lotar e transpor a pé as calçadas com suas lojas de roupa, padarias, pet shops e mercados. Spike indiferente ao que acontece volta a deitar a cabeça sobre as patas. O terminal Grajaú está entupido. A linha para o Cantinho do Céu possui pelo menos cinco filas e filas enormes. Muitos já chegam e nem perdem tempo. Passam pelas catracas do Terminal e começam a procissão para casa. Uma caminhada de quarenta minutos da forma que acharem melhor, passos rápidos, passos lentos, observando o trânsito da avenida, conversando com o ...

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