Pular para o conteúdo principal

Deus não dá, mas tira!

O nosso lugar não é no centro da cidade. O nosso lugar não é nos centros comerciais. O nosso lugar não é nos bairros nobres.

O nosso lugar não é na escola. O nosso lugar não é na faculdade. O nosso lugar não é no hospital.

O nosso lugar não é nos shoppings.

O nosso lugar não é no cinema. Não é no teatro. Não é numa exposição.

O nosso lugar não é no transporte coletivo.

O nosso lugar não é nas ruas.

O nosso lugar não é onde moramos.

As comunidades são removidas por interesses econômicos.

Os pobres não tem lugar. Só gente montada no dinheiro.

Quem tem dinheiro tem tudo: moradia, educação, segurança, saúde, lazer, trabalho. Quem não tem, tem que se contentar com um rascunho de projeto de vida que sonha com um pouco de dignidade.

O nosso lugar é na sarjeta. O nosso lugar é na margem.

Margem de tudo.

O nosso lugar é nos engenhos.

O nosso lugar é nas minas.

O nosso lugar é na cadeia.

O nosso lugar é na lama.

O nosso lugar é na senzala.

O nosso lugar é no não lugar.

O nosso lugar não é no céu onde tudo vai ser melhor e nem no inferno onde tudo vai ser pior.

O nosso lugar não existe e por isso não existimos.

Para o governo. Para o sistema de educação.

O sistema de saúde. Para a segurança pública.

O nosso lugar tem que ser construído por nós mesmos com suor e sangue.

E depois dizem que o sistema contribui para isso.  

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A matemática do amor

O universo possui 14 bilhões de anos. O sistema solar tem quase 5. A Terra também tá aí nessa faixa etária com seus 4 bilhões e meio.  A matemática nesses casos é aproximada. Fruto de processos, cálculos e fórmulas complexas. Com tantos números superlativos o tempo parece infinito.  Com os nossos 20 e poucos anos, quase 30 se pá, estamos ocupando somente a menor das menores das menores e menores frações de tempo desse mundo. Separo a dimensão do tempo com a do espaço, mas na verdade o que existe é a dimensão conjunta do espaço-tempo. E comigo ela funciona assim: quando estamos em espaços diferentes o tempo é mais lento e quando estamos pertinho ele é mais rápido. 2 anos é muito pouco, mas já é suficiente para saber: quero toda fração de tempo com você. 2 anos também é um número aproximado, pois o que construímos é maior do que esse valor. O nosso amor é maior do que a soma de nossos anos.  Ele tá mais próximo da idade do universo.  2 an...

Tira-Teima

Ela diz que eu sou teimoso, mas eu insisto que não. Ela que é teimosa por insistir que eu sou teimoso. Entre teimas e teimas resolvi tirar um tira-teima: quando eu digo que a amo ela responde com um amo mais e quando ela diz que me ama eu respondo com um amo mais. Nessa teima sem fim nunca saberemos quem ama mais quem. Os dois são tão teimosos que provavelmente se amam em igual medida: a medida do amo mais. A grandeza é dada pelo amor, o nome da unidade é amo mais e seu símbolo é o infinito (∞) [1] . [1] A parte matemática provavelmente está errada, mas nesse caso ela só serve para ilustrar o quão infinito é o amor de dois teimosos.

O lugar é a gente

Felipe desce o escadão do Carioba. O prédio escolar está vazio e escuro. Férias. Na sua frente dois caras carregam uma geladeira num carrinho de mão, enquanto um guia o carrinho, o outro segura o eletrodoméstico evitando que ele não tombe para o lado. Um som familiar vem se aproximando lá de trás: vamos as atividades do dia. lavar os corpos. contar os corpos. e sorrir a essa morna rebeldia. Um cara de camiseta e calça preta, vans quadriculado, segurando uma sacola numa mão e uma garrafa de água pela metade na outra passa por ele e pelos homens que carregam a mudança cantando: só os louco, só os louco, só os louco. Cumprimenta os trabalhadores e segue fazendo a trilha sonora de sua volta pra casa. Trilha que vai se misturando aos outros ruídos da vila. O fim do escadão dá numa praça improvisada pelos moradores onde uma árvore se sobressai aos vasos de plantas feitos com pneus. Uma molecada aparece do nada. Felizes. Um deles carrega algum objeto que pisca sem parar. S...